Sustentabilidade destituída de seus conceitos

Sustentabilidade hoje é uma palavra destituída de seus conceitos.

Mas destituída por quem? Por uma entidade etérea, difusa e dinâmica: o Mercado. Ou melhor: o Mercado Capitalista Globalizado – seu nome completo.  Isso inclui desde pequenos empreendimentos locais de cookies artesanais, passando por <insira qualquer coisa aqui>, até gigantescas petrolíferas internacionais. Desde os negócios mais justos e honestos até os business mais injustos e pilantras.

O Mercado jamais deixa passar qualquer oportunidade de fazer marketing, mais até que o Estado. No caso da palavra Sustentabilidade, o Mercado pegou pesado. A palavra foi estraçalhada. Com o que sobrou, fez implantes (sem anestesia), dando origem a seres inomináveis como Economia Verde. Um híbrido é o famoso Desenvolvimento Sustentável, que até vale a pena ser explorado por seu “tripé social-ambiental-econômico”, uma ideia interessante, mas a expressão não deixa de ser uma degeneração por isso.

Uma prova desse massacre é que a palavra Colapsoirmã conceitual de Sustentabilidade, é desaparecida. Minha suspeita é que foi assassinada vorazmente do léxico cotidiano, das mídias e, óbvio, do mercado (com m minúsculo). O assassino: o Mercado (com M maiúsculo).

Afinal, quem compraria “um arroz que ajudaria, se todos comprassem o mesmo arroz, a postergar o colapso hídrico da região produtora para 2060 em vez de 2040“?  É muita complicação técnica e muito baixo astral junto! Definitivamente, não vende. Parem de falar em Colapso e começem a falar em ~ Green Thinking ~.

Outras palavras e expressões, além de Colapso, que compõe a mesma constelação conceitual de Sustentabilidade são: sistema, fluxos, controladores (drivers), recurso, taxa de esgotamento, reservatório (stock), taxa de crescimento, limites do crescimento, capacidade suporte, taxa de renovação, retroalimentação equilibrante (balancing feedback), retroalimentação reforçante (reinforcing feedback), et cetera.

  • Quais recursos naturais afluem para minha cidade?
  • Sob que taxa de crescimento?
  • Quais são os mecanismos controladores das taxas de esgotamento desses recursos?
  • Os controladores fazem as taxas aumetarem ou diminuírem?
  • Um dado recurso será completamente deplecionado, levando a economia desse recursos ao colapso?
  • Dadas as taxas de esgotamento e taxas de renovação, qual é a capacidade de suporte de exploração desse recurso que oferece um grau mínimo de sustentabilidade?

Todas são palavras integrantes do mesmo arcabouço teórico, mas extirpadas dos repertórios cotidianos. Entretanto, sem elas, Sustentabilidade passa a ser uma palavra vazia.


Na imagem destacada, parte do Pólo Petroquímico de Triunfo.

 

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4 comentários sobre “Sustentabilidade destituída de seus conceitos

  1. Ainda que a deturpação da sustentabilidade com o nascimento da economia verde, acredito que tem a vantagem da postergação do colapso. Vejo como um passo intermediário. Não acredito em virar de cabeça pra baixo o sistema econômico de uma hora para outra, sem uma transição.
    No Brasil, infelizmente se vê pouco o debate no âmbito do Mercado em uma transição para Economia Verde. Ainda estamos na fase do greenwashing. Diminuir a exploração de recursos não renováveis é urgente. Mas né. Vai dizer isso pra Frente Parlamentar em Defesa do Carvão Gaúcho.

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    1. De acordo que não temos como mudar sem transição! Mas será que não estamos fugindo da vez mais do cerne mais profundo da questão? Pessoalmente, nunca vi nas altas esferas nada sendo discutido e planejado sobre colapso da economia de recursos (e aqui incluímos solos, água, nutrientes como fósforo, etc) . No debate público, então, nem se fala. Por outro lado, já vi cada coisa maluca sendo veiculada como sustentável…

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      1. E aquele Plano RS Sustentável?
        Acho que nunca houve algo tão descaradamente inútil (sob o aspecto de que quando foi encomendado todo mundo já sabia que ia acabar em uma gaveta).

        Curtido por 1 pessoa

      2. Não achei mais a página desse programa “RS Sustentável”. Eles produziram/inventariaram dados sobre taxas, fluxos e capacidades de suporte dos nosso recursos? Trabalharam com Cenários?

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