Redenção

A imagem expõe o Parque Farroupillha em um dia ensolarado de Porto Alegre. Como de costume dos porto-alegrenses, ninguém chama o Parque pelo nome oficial,  apenas chamam de “Redenção”. De brinde, a imagem nos presenteia com a visão de cima da Rua da República, Lima e Silva, José do Patrocínio, José Otão (no Bom Fim) e outras.

A história por trás do nome é interessante. No início do século XIX o lugar era um campo em frente aos portões da cidade e assim chamava-se Campo da Várzea do Portão. Além de servir de potreiro, o campo também era uma manobra militar: mantinha a visão clara de quem resolvia se aproximar da cidade vindo por terra, seja com boas ou más intenções. Depois, ainda no século XIX o nome mudou para Campos do Bom Fim, relacionando com a proximidade da Igreja Nossa Senhora do Bom Fim, que devia ser bem movimentada naqueles tempos. O final daquele século foi marcado pela abolição da escravatura e, por isso, em 1884 a Câmara de vereadores deliberadamente homenageou o povo afro-americano libertado, mudando então o nome do lugar para Campos da Redenção. O nome, pelo visto, felizmente pegou. Mais tarde, em meio ao centenário da Guerra Farroupilha (em 1935), um decreto municipal transformou a Redenção em Parque Farroupilha, em um gesto um bocado bairrista, na minha opinião.

O parque localiza-se entre o antigo Caminho do Meio (atual Avenida Oswaldo Aranha) e o antigo Caminho do Mato Grosso (atual Avenida João Pessoa). Na imagem, as avenidas são nitidamente visíveis, sendo a Av. Oswaldo Aranha a da esquerda e a Av. João Pessoa a da direita. A Rua José Bonifácio delimita o terceiro lado do Parque, que se parece com um triângulo. É possível verificar na imagem, na r. José Bonifácio, o Colégio Militar de Porto Alegre, que foi uma das escolas mais importantes no século XX para a História do Brasil. Por ali passaram sete presidentes: Getúlio Vargas, Gaspar Dutra, Marechal Castelo Branco, General Costa e Silva, General Garrastazu Médici, General Ernesto Geisel e General João Figueiredo. Em resumo, um berçinho de ditadores (só o Dutra “se escapa”).

Outra marca militar do lugar é o “eixo” central, muito agradável para caminhar quando se deseja sair do sufoco da densa cidade. Bem visível na imagem, é no início (ou fim) do eixo que se encontra o nosso humilde “Arco do Triunfo Bagual”, um arco duplo na verdade, em homenagem às Forças Expedicionárias Brasileiras (FEB) que operaram com sucesso no front italiano na Segunda Guerra Mundial.

O Parque da Redenção, é uma ilha verde articial, construída no meio da selva de pedra de Porto Alegre. Articial, mas ainda assim uma jóia inestimável. Todas as árvores foram de algum modo plantadas ali pelos cidadãos de Porto Alegre, algumas inclusive setenta anos atrás. É o único lugar a poucos metros do Centro onde se pode estar sem conseguir visualizar o tráfego da cidade. É um lugar onde, felizmente, as pessoas podem ter uma experência mais humana entre si, mais local, mais amiga, sem máquinas barulhentas e poluentes por perto. Dois exemplos são a feira ecológica e o “brique” que se realizam todos os finais de semana, ambos na Rua José Bonifácio. Tais eventos são muito importantes para manter a cidade viva, ativa no seu espaço público e densa em sua cidadania.

No entanto, ao cair a noite, o lugar fica estranhamente sombrio e inseguro, o que, na minha visão, produz grandes impactos negativos em toda a região. Não é por acaso que o contrato de permissão para o setor privado restaurar e operar o Araújo Vianna permitiu a implantação de uma asqueirosa cerca ao redor do antigo auditório (ainda em restauração na imagem). Penso que a municipalidade deve urgentemente investir em infraestrutura noturna para o Parque, como a simples iluminação. O lugar é uma conquista cidadã e deve muito bem ser usado pelas pessoas tanto de dia quanto de noite. Além disso, uma vez que os bairros que cercam a região, Bom Fim, Santana e Cidade Baixa são bairros que se aproximam de uma economia noturna e boêmia, existe um óbvio (ou talvez nem tanto) apelo micro-econômico para fortalecer o uso noturno desse lugar histórico. Só resta aos compatriotas abrirem seus olhos.


 Fontes:

  1. http://www2.portoalegre.rs.gov.br/smam/default.php?p_secao=201
  2. Atlas Ambiental de Porto Alegre, Ed. UFRGS, 1999.
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2 comentários sobre “Redenção

  1. Você viu o projeto que a prefeitura lançou?

    Projeto da prefeitura “PARQUE ILUMINADO: EU CURTO, EU CUIDO” está ampliando e requalificando a iluminação da Redenção, utilizando lâmpadas mais eficientes e econômicas.

    Ao todo, serão 459 pontos de luz, distribuídos através de uma nova instalação subterrânea, com a utilização de lâmpadas de LED e Vapor Metálico, que são mais duráveis e econômicas, reduzindo o impacto ambiental.

    Vejam as praças e parques que serão contemplados: http://goo.gl/L3QbXR

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